terça-feira, 29 de junho de 2010

Entre Olhares (Contos) Parte 1

Mais uma escritora de grande talento, nos cede um de seus contos. O nome dela é Tattah, escritora do Site abcLES, da comunidade do orkut Histórias e Desabafos, do site Livre Arbítrio, Nyah Fanfiction, a agora com muita alegria recebemos Tattah em nosso site.




Entre Olhares (Parte 1)


14:30

- Hey! Cuidado! Sua louca!

Olhei para o rapaz em que esbarrei por um instante apenas e continuei correndo enquanto gritava para ele:

- Desculpe!

14:35

O sinal estava aberto. Algumas pessoas se amontoavam na calçada a espera do sinal vermelho que lhes permitiria a passagem para o outro lado da rua. Eu era uma delas. Tamborilava nervosamente meus dedos na lateral de minha coxa e olhava o tempo todo para o semáforo. Estava ofegante pela corrida, mas ainda tinha forças para correr muito mais. Por que estava demorando tanto?

Olhei para o relógio, estava mais que atrasada. Droga!

O sinal fechou e reiniciei minha corrida.

Mais dois quarteirões.

Só mais dois.

Aposto que estão curiosas em saber o motivo da minha pressa. Eu explico!

O motivo tem nome, Cecília, cabelos negros, olhos azuis escuros e um sorriso tímido maravilhoso. A maioria das pessoas diria que não é bonita, mas também, não é feia. E' baixinha se comparada aos meus um metro e setenta e cinco, um pouco gordinha, usa óculos de grau, é solitária... Enfim, ela não se enquadra nos “padrões” de beleza impostos pelas revistas ou televisão. Não é uma modelo magricela e cobiçada, mas que importa? Não estou, nem nunca estive a procura de um ser fisicamente perfeito.

Ela poderia ter passado despercebida por mim como dezenas de pessoas por quem passo nas ruas todos os dias, mas algo no seu jeito tímido me chamou a atenção quando entrou naquela lanchonete duas semanas antes. Eu estava sentada em uma mesa no canto oposto a porta de entrada. Ouvia entediada minha melhor amiga falar sobre o namorado que, diga-se de passagem, é um idiota.

- Ele me deixou falando sozinha, acredita?!

- Vindo desse cara nada me surpreende. – comentei brincando com o canudo no meu suco.

Foi quando a vi entrando, parecia perdida, tinha um olhar perdido, um jeito de moleca, não deveria ter mais que vinte anos, carregava alguns livros e uma mochila, provavelmente era estudante de uma das universidades ali perto.

Ela poderia ser apenas mais uma de tantas pessoas com quem cruzava na rua, no trabalho, nos bares e lanchonetes, e restaurantes que freqüentava. Poderia... Mas antes que meus olhos voltassem a se dedicar a observar o meu copo de suco, nossos olhares se cruzaram.

Por alguns segundos aqueles olhos penetraram minha alma, aqueceram meu coração como se o pudessem tocar. Senti minha face arder, minhas mãos suarem, tremerem, a garganta ficou seca e, por mais que quisesse não conseguia me concentrar em nada mais a minha volta a não ser: ela. Em toda a minha vida, nunca me senti assim com um simples olhar.

Um sorriso tímido, ela o dirigiu a mim e sentou-se de costas para minha mesa. Senti como se o mundo, por um instante, se inundasse de cores e sons melodiosos, depois fui atirada ao cinza e ao barulho quase infernal da cidade. Isso é possível? Sempre achei que fosse besteira quando as pessoas falavam algo do tipo. Taí! Vivendo e aprendendo.

- Hey! Você tá me ouvindo? – minha amiga estalava os dedos diante dos meus olhos arrancando-me de meus devaneios, do meu encanto.

- Estou... – não tinha ouvido nenhuma palavra sequer desde que sentamos naquela mesa.

- Mas não está mesmo! Que foi? Entrou algum gatinho? Se foi me mostra, não guarda essa visão maravilhosa só pra você. Vamos, cadê?

Definitivamente ela sabia como estragar um momento mágico. Quase a esganei. A menina saiu vinte minutos depois e mal percebi isso se não fosse pela minha amiga chata que ainda não tinha caído na real que eu não estava nenhum um pouco interessada em ouvir suas lamúrias pelo namorado cafajeste.



14:41


Só mais um quarteirão.

Há muito tempo que sei e admiti para mim mesma que sou lésbica. Até que me aceitei facilmente, mas nunca conversei com ninguém a respeito, não por medo como imaginam. Já sou bem grandinha, tá? Tenho vinte e sete anos, um bom emprego, moro só e bem longe dos meus pais super, hiper, mega cuidadosos. Felizmente, tenho uma irmã caçula recém saída da adolescência que dá muita dor de cabeça a eles e os deixa ocupados demais para lembrarem de mim.

Nunca fiquei com uma mulher, não por falta de coragem, oportunidade ou qualquer outro tipo de medo. Simplesmente não encontrei alguém que me fizesse ter a vontade de ficar. Compreendem? Bem, acho que não muito. Não é fácil entender os motivos de alguém para se negar a viver o que provavelmente será a maior experiência de sua vida, mas aceitem então o fato de que sou complicada.

E' aí que entra aquele pensamento machista: “Por que mulher é um bicho tão complicado?”. Confessem: Nós somos mesmo complicadas, cada uma de sua forma particular, mas somos.

Acho que agora estão compreendendo o motivo de eu estar correndo como uma louca e olhando a todo instante para o relógio.

E'... E' isso mesmo! Estou apaixonada pela menina da lanchonete.

Estranho explicar o que ela mudou em mim sem sequer termos nos falado algum dia. Desde que a vi pela primeira vez, tornei-me uma freqüentadora assídua da lanchonete e descobri que a garota é pontual, vai lanchar todos os dias as 14:30 e sempre estou lá para vê-la entrar, me dirigir um olhar penetrante e me deixar sem ar com o seu sorriso. Escutei a garçonete chamá-la pelo nome certa vez e me encantei mais ainda por ela.

Travamos, todos os dias, uma luta silenciosa com nossos olhares e ela ganha sempre. Mas, cansei de apenas admirá-la, de desejá-la, de sonhar com ela, então estava correndo o máximo que meu corpo permitia, correndo para encontrar a minha felicidade e dizer a ela o que trazia em meu coração, superando os obstáculos que me foram impostos naquele dia para conseguir chegar antes que ela se fosse.


14:45

Ela sempre ficava vinte minutos na lanchonete, nunca mais que isso! Estava sem tempo!

Acelerei o passo! O ar me faltava, mas não queria parar, não podia parar!

Em meio a essa corrida toda, me peguei a pensar se tudo não passava de uma ilusão. Sei que de minha parte não era. Mas e se eu estivesse imaginando coisas? E se ela me desse um fora? E se... São tantos “se”...

Nunca me senti tão segura e insegura ao mesmo tempo.


14:59

Virei a esquina no exato momento em que ela saiu da lanchonete. Minha alegria em vê-la foi tanta que esqueci de parar e acabei indo direto ao seu encontro. Caímos ao chão abraçadas. As pessoas a nossa volta olhavam curiosas e seguiam seu caminho, mas para mim o mundo poderia parar de girar naquele instante.

Me vi presa daquele olhar novamente. De tão azuis, poderia mergulhar naqueles olhos. O ar me faltava, meu corpo inteiro tremia de cansaço, mas a sensação única de tocá-la me fazia sentir nas nuvens.

Ela me observava entre curiosa e zangada, só então percebi o que estava fazendo. Ergui-me de um pulo e estendi a mão para ajudá-la. Ela a aceitou.

- Desc... Desc... Desculpe! – nunca estive tão nervosa, nunca fiquei tão ansiosa.

Timidamente ela sorriu e meu coração quase parou.

- Eu... Eu... – tentei falar.

Ensaiei tantas palavras, tinha tudo memorizado, mas naquele momento não existia nada a não ser as batidas desenfreadas do meu coração e a minha mão na dela.

Cadê a coragem para falar? Cadê as palavras?

Ela não parecia querer ir embora, tão pouco soltou minha mão. Ficamos a nos olhar fixamente em silêncio, unidas por uma força inexplicável, uma corrente continua gerada por um sentimento forte e sincero.

Eu sabia, ela sabia. Nossos corações já sabiam.

Então, que se danassem as palavras! A puxei para mim e fiz o que meu coração desejava, o que havia sonhado por tantas vezes. A beijei e fui correspondida! Fui levada ao paraíso pelo sabor doce de seus lábios.

Nos separamos, as mãos ainda unidas. Um sorriso desenhou-se em minha face, o dela foi diferente dos que eu já conhecia, foi mais largo, mais encantador, mais apaixonante. Tocou-me a face com a ponta dos dedos e sussurrou antes de soltar minha mão e partir:

- Não se atrase mais.


Continua..........

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2 comentários:

Mara disse...

simplesmente amei... sem palavras... *-*

3 de julho de 2010 11:22
Anônimo disse...
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